terça-feira, 6 de maio de 2014

A (Inúmeros) Pedidos,

Não foi um, dois ou três pedidos para documentar a incrível experiência de receber em meu coração os meus filhos F. (10)e J.A. (9).

Nossa história como família começou em 2011, quando procuramos pela primeira vez o setor de assistência social do fórum da Comarca de Criciúma - SC. Com o coração cheio de esperança, recebemos o primeiro "balde de água fria". Para ingressarmos na fila da adoção, necessitaríamos fazer um curso de capacitação. E para fazer este curso, entramos na lista de espera para o segundo semestre do 2012. Deixei o fórum chorando. Toda a frustração de todas as gravidezes sonhadas, esperadas e não-realizadas afloraram neste momento. Foi doloroso saber que ainda precisaríamos esperar mais um tempo, para nos candidatarmos a pais. Este assunto difícil e cheio de "mimimi" fica para outro capítulo, quando irei contar sobre o período de "luto" pelo filho que não veio, para poder acolher no coração os filhos que vieram! Nossa história então dá um salto no tempo. Mais de um ano depois de procurarmos o fórum, recebemos o telefonema da assistente social, confirmando a participação do curso preparatório. Lá fomos nós, nos encontrar com outros candidatos a pais, receber informação sobre o processo e o mais importante: derrubar preconceitos e rever certezas.
Em novembro de 2012 concluímos o curso. Entramos com certezas X Y Z, saímos com dúvidas multiplicadas ao infinito. Confesso que me achei muito bem resolvida comparada com alguns dos colegas. E meio atordoada com o quanto abri meu coração à realidade das crianças abrigadas no Brasil. Eu ainda achava que só era possível ter apego e amor imediato por crianças pequeninhas. Até ouvir, ler e pesquisar sobre a adoção tardia. Plantaram a sementinha no meu coração. O tempo que veio a seguir serviu para a sementinha germinar, crescer e solidificar em mim. Passado totalmente o luto pelo filho idealizado, meu coração entendeu que maternar é possível em qualquer idade. Que teria milhões de primeiras vezes com meu filho. E que este filho poderia ter irmãos. Poderíamos aumentar nossa família consideravelmente! Mas ainda tudo isso era MEU sentimento. Faltava o meu companheiro de vida e sonhos se abrir para a possibilidade de uma adoção tardia. E aí entra o nosso segundo salto no tempo.
Segundo semestre de 2013. Praticamente um ano depois de concluído o curso de capacitação, recebemos um telefonema do fórum. (Não pensem que não entrávamos em contato periodicamente com a equipe técnica, perguntando do andamento do processo de habilitação...) BENDITO telefonema! Começaríamos para valer o processo de adoção. Era a hora de reunir certidões, atestados, documentos... Tudo documentado, entregue, sentimos que estava de fato "começando" a virar realidade. Nesta mesma época, estávamos finalizando a construção da nossa casa. Lembro de ter perguntado à assistente social sobre a visita em casa, preocupada se seria em nosso antigo "apertamento" ou se seria na casa nova. "Na casa nova". Bem, nunca achei que seria rápido mesmo...
Em outubro, outro telefonema. Iríamos começar as entrevistas. Novembro passou voando, as conversas maravilhosas com a psicóloga. As últimas neuras dissipadas. O dia de preencher o perfil.
"Escolher". Etapa MEDONHA. Muita gente leva ao pé da letra, essa etapa. Escolhem mesmo. Cor da pele, histórico familiar, idade, irmãos, doenças... acho que grande parte dos nossos medos e preconceitos sumiram nesta hora. Entendam, o sistema de busca do CNA (cadastro nacional de adoção) é engessado. Ele é um programa de computador, alimentado por dados das crianças disponíveis para adoção. É necessário colocar parâmetros de busca. Nem que seja "não faz restrição" nos quesitos "escolhíveis". E assim definimos: "não faz restrição" em todos os quesitos a não ser "idade = 12  anos"; grupo de 3 irmãos e "doenças e síndromes tratáveis, como hepatite C e HIV". Pronto. Estávamos definindo o nosso futuro. Foi a maior dor de barriga até então. Saímos do fórum completamente radiantes! Com a visita domiciliar marcada, cheios de esperança e confiantes que nossas escolhas nos levariam às crianças mais desejadas, esperadas e amadas do planeta Terra. (Superlativos de mãe coruja, eu posso!).
No dia da visita domiciliar, acordei as 5 da manhã. As 8 minha casa estava IMPECÁVEL. Casa de revista de decoração. Óbvio que eu estava mais do que informada que não é o bom-gosto ou a tendência virginiana de arrumar o armário em degradê de camisas que permitem uma casa receber crianças. Importante é garantir segurança, higiene, bem-estar... Estávamos montando o nosso "ninho", sonhando com o dia que "eles" chegassem e garantissem a alegria da casa!
Alguns dias se passaram, novo telefonema. Achei que era mais algum procedimento, alguma entrevista, outra burocracia. Fui sozinha, o marido estava viajando a trabalho, e não quis adiar as burocracias por conta disso... Na sala da psicóloga, a pergunta: "Você sabe por quê você está aqui?" Mal consegui articular uma resposta... "Temos um casal de irmãos para te apresentar... eles tem 9 e 8 anos". Foi tudo o que a minha memória gravou do momento anterior à ver as fotos das crianças que eu viria a amar de todo o meu coração. O sorriso da minha filha. A carinha de sapeca do meu filho. Momento apaixonante. Acho que fiquei nas nuvens por uns instantes, não tirei mais o sorriso da cara por algum tempo... Mal pude esperar para telefonar para o maridão e contar a novidade... Então nos sentimos de fato "esperando".
Aqui cabe uma explicação bem contundente. Fui questionada sobre "como" estaria conhecendo crianças se nem habilitados estávamos ainda. Em nossa comarca, havia somente os meus filhos disponíveis para adoção. As demais crianças abrigadas não estavam destituídas. A adoção tardia é algo raro. E ao contrário do que se pensa por aí, não são os pais que escolhem os filhos. Você que está pensando em adotar, não visite abrigos escolhendo um filho. Muitas crianças estão lá temporariamente. Algumas estão em processo de reaproximação com a família. Dizer à uma criança que você gostaria de adotá-la pode ser extremamente perigoso. Ela irá criar expectativas, irá fantasiar... isso aconteceu com a minha filha, volta e meia temos conversas difíceis, quando ela é contrariada, sobre uma determinada pessoa que havia prometido ser sua mãe, mas só por piedade, sem qualquer intenção de realmente se habilitar para adoção... isso é assunto de outra postagem... Como eu dizia, a equipe técnica do fórum conhece o perfil das crianças disponíveis naquela comarca, e vai achar pais para essas crianças. E não achar crianças para os pais que estão na fila. Então, o cadastro único de pretendentes é algo realmente subjetivo. Pois preenchemos preferências, restringimos algumas características e isso que determina o seu lugar real na fila. Para cada perfil preenchido existe uma "sub-fila". Para adotar um grupo de irmãos, também a equipe irá considerar a disponibilidade real de tempo que esta família terá; as condições psicológicas dos pais, etc, etc, etc. De um parente querido que também estava na fila, recebi uma mensagem questionando a seriedade do processo de adoção que nos submetemos. O perfil dele era um tanto diferente do nosso. E sim, um ano a mais no preenchimento do perfil pode tornar a espera muito menor. Mas isso não quer dizer que os candidatos devam modificar o perfil se não estão realmente abertos à essa mudança. Sem dúvidas, acolher um filho de 2 anos é consideravelmente diferente do que acolher um de 12. Ouça o seu coração, racionalize o mais que puder. Faça de tudo para ser honesto consigo mesmo. O preenchimento do perfil é a única garantia de proteção da criança contra uma possível rejeição no período de adaptação. E uma segunda rejeição é tudo que a criança abrigada NÃO precisa. De maneira alguma altere o seu perfil se isto não for sincero. Se você sonha com um bebê, saiba que sim, vai demorar bastante. Mas entre NUNCA e demorar bastante, fique com o demorar bastante.
Então, éramos a primeira escolha para aquelas crianças. Entendendo isso, fomos nós, pai e mãe em ser, consultar novamente com a psicóloga. Perguntas mil... sobre a família biológica, sobre a situação legal, sobre peculiaridades... Nos foi pedido um tempo para que se desse a notícia às crianças. Para que tomassem ciência que suas vidinhas iriam ser diferentes. Isso me cortou o coração. Se há tempos eu não me comovia com muita coisa, neste dia, chorei muito. Tive muito, muito medo. Já havíamos nos apaixonado. E se não nos quisessem? E se não desse certo? E se fizéssemos algo errado?
Tivemos algumas sessões, onde nos era repassado como eram os encontros preparatórios com as crianças. Recebemos cartinhas, desenhos... Separamos fotos nossas, dos gatos, dos avós, dos tios, para que eles nos conhecessem da mesma maneira que os conhecemos: por fotos. Tiraram fotos com as nossas fotos: a primeira foto de família (palavras da F.). 
2014 começava com tudo. Com todas as emoções possíveis. Enfim, O ENCONTRO. Chegamos antes. Entramos na sala de atendimento familiar. Espera, espera. Suando frio, imaginando milhões de coisas... como seria a voz, como seria o cheirinho, o toque da pele, a textura dos cabelos, o som da gargalhada... Iriam gostar de nós? F. havia pedido para ter uma "mãe bem bonita". Até unha postiça eu coloquei. Insegurança total. Se eu estava com medo, imagina eles? Ouvimos risadas e gritinhos no corredor. Coração na boca. Chegou o momento! Coisa estranha, misteriosa. Nos pertencíamos. Aquela menina meiga, o menininho tímido. Saíram naquele momento do mundo da imaginação de dois adultos sonhadores e caíram no colo de pais amorosos. Parimos. Ali, na salinha de atendimento do fórum. Nossos filhos chegaram. Por uma hora conversamos, nos abraçamos, começamos a ser menos estranhos. Marcamos para a próxima semana novo encontro. Passou rastejando. Relatividade, né Einstein? Nossos encontros subsequentes foram cada vez mais prazerosos, nos conhecíamos cada vez mais. Chegou março e pudemos levá-los de volta ao abrigo, depois de uma sessão no fórum. Que delícia. Nos apresentaram para todas as cuidadoras, as crianças, as voluntárias, as funcionárias... Este é meu pai, esta é a minha mãe. Nos chamavam de pai e mãe, de tia, de tio, de professora, de professor... Mas esta apresentação nos aliviou: fomos aceitos!
Em duas semanas eles vieram conhecer a casa antes de passar o final de semana. Seria o aniversário da F., 10 anos, duas semanas depois do aniversário do J.A., de 9 anos. Iríamos celebrar em família e apresentá-los aos familiares (família e amigos) chegados aqui de Criciúma e aos vizinhos do condomínio. Passamos 4 finais de semana juntos, e após o feriadão da Páscoa, na sexta-feira dia 25 de abril de 2014, finalmente, fizemos a mudança para casa. Resumidamente, este é o início da nossa família. Aos poucos, vou abrir "parênteses" sobre cada aspecto do processo da adoção, sobre as experiências em recebê-los, sobre as vivências... Podia terminar a história agora, com um " ... e foram felizes para sempre", mas sinto que o final feliz foi apenas um início feliz de uma linda, complexa, emocionante e apaixonante história de amor.
Vou tentar resgatar meus "informes" no Facebook, para ter maior precisão de datas. Tentarei manter uma periodicidade de postagens, como um diário, e aos poucos, inserir postagens sobre o que já fizemos e passamos. Não encontrei muitos relatos sobre a adoção tardia, sobre o período de adaptação de crianças maiores, e sobre as especificidades dos meus filhos. O meu maior motivador em compartilhar a "intimidade" da construção do amor parental, do aprendizado da maternagem, é este: ser lida por alguém que esteja pensando em encarar esta realidade enquanto ainda é sonho. Dar o empurrãozinho para alguém abrir o coração e se permitir amar e ser amado de uma maneira INCONDICIONAL. Conhecer pessoas que estejam vivendo o amor. E especialmente responder à ENORME torcida positivíssima que recebemos desde o dia em que decidimos que seríamos pais através da adoção. Obrigada a cada um que sonhou junto, que segurou a barra, que fez sua prece, que deu um sorriso ao nos ver felizes.


24 comentários:

  1. Que linda a sua iniciativa. Tenho certeza que irá encher muitos corações apertadinhos, de esperança e fé! Que Deus abençoe essa sua família linda, que teve muita espera e data para começar, mas que de agora em diante terá todo o tempo para viver esse encontro mágico! Bjs

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  2. Simplesmente lindo! Parabéns por tudo! Vcs são demais...uma família linda que enche nossos corações de esperança, felicidade e amor!

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  3. Somos parte de uma família perfeitamente doida.... lindo Ine seu relato de amor superação e doação. .... ♡ ♥

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    1. Denize, tua história foi importante demais para acreditarmos no amor incondicional que existe na adoção! Somos felizardos por termos vocês em nossa família!

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  4. Ói que beleza, tô chorando.
    Que coisa mais linda!
    Estou adorando poder acompanhar essa estória maravilhosa.

    Eu tô abraçando apertadíssimo vocês quatro, beeeem Felícia :)

    Felicidades!

    Beijos,
    Bruna H-Behnke

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    1. Bruna-Manhê, tudo de lindo nesta reta final. Daqui a pouco começam as tuas aventuras no país das mães! Beijocas

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  5. Oi querida... Chorei de emoção ao ler seu relato. Fico imaginando as centenas de crianças mais velhas que tem certeza de que não serão mais adotadas por ter "passado da idade". A maioria dos pais só querem bebês mesmo...talvez por medo de não serem aceitos sendo as crianças maiores. Imagino que pensem que com bebês o amor vai crescendo com o tempo. Graças a Deus que vc e seu marido optaram por adotar crianças mais velhas...eles tbm merecem um lar cheio de amor né? Vou orar muito para voces serem felizes e vou pedir a Deus que os fortaleçam qdo tiverem que ser mais firmes na educação deles. Criar filhos não é fácil sendo eles da barriga ou do coração mas é a melhor coisa que existe. Torço por vocês . Que Deus abençoe sua linda família que não começou tarde e sim, no tempo certo: O TEMPO DE DEUS.
    Beijos

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    1. A adoção tardia não é para qualquer um. Ouvi e li isto em toda parte. Realmente, é difícil. Mas criar filhos não é fácil. Ter filhos não deveria ser para qualquer um, isso sim. Estamos abertos para amar, para receber amor, para viver em família. Obrigada pelo apoio!

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  6. Tenho orgulho demais de fazer parte desta história linda!
    Sou a tia mais babona da história da humanidade! :)
    Contem conosco sempre, para o que der e vier. Beijo!

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  7. Nossa muito emocionante tudo isso qui voce relatou!! lendo no comeco fiquei triste e agora muito feliz por saber de tudo isso !! Voce conseguiu mulher de fibra ...valente ...corajosa.. etcc ***FELIZ DIA DAS MAES***junto com sua familia!!! beijos

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  8. Muito muito emocionante! Que Deus abençoe seus pequenos sempre sempre. E parabéns pela linda atitude de se tornar uma linda mãe. Deus abençoe sempre sua família.

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  9. Parabéns!!! Muito lindo!!! Que Deus abençoe e ilumine vocês nesta nova fase formando esta linda e feliz família!!!

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  10. Ai meu Deus, chorei! Que história comovente... existe algo mais lindo que família? Estou felicíssimas por vocês e seus filhos. Sempre bisbilhotava os seus comentários pelo facebook de uma amiga, e estava aqui na torcida secreta pra essa família se formar logo! Meu coração está cheio de alegria por vocês <3

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  11. Eu fui adotada aos 5 anos...Parabéns!!!

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  12. Que lindo amei!! Me emocionei!
    Bjo

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  13. Também sou mãe adotiva-coração, nossa filha hoje está com 5 anos,mas quando ela nasceu em nossas vidas tinha 11 meses.Me emocionei com seu testemunho, porque o sentimento que você teve ao ver a foto dos seus filhos foi o mesmo que nós tivemos ao ver a foto da nossa filha.Que DEUS abençoe a toda sua família, e lhes dê muita sabedoria e saúde.

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  14. O que dizer: lindo! Chorei q nem criança. Deus abençoe sua familia!

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