sexta-feira, 18 de julho de 2014

90 dias de família

Notáveis diferenças em cada um de nós estão gritantes. Meus filhos, cada dia mais meus filhos: estamos nos tornando parecidos, aquela coisa de trejeitos, expressão facial... e o mistério. Os sorrisos estão cada vez mais iguais. Parecemos uma família de longa data. Eles estão progredindo a passos, saltos, na escola. E segundo comentários gerais, eu estou transpirando felicidade. (E estou mesmo).
Todas as adaptações ainda estão acontecendo. Especialmente no que diz respeito à rotina de trabalho dos dois adultos, que têm horários flexíveis e homeworking. Ainda é um desafio equilibrar os pimpolhos em casa e a necessidade de estar trabalhando. Nossa necessidade agora é muito mais de ordem prática do que emocional: estabelecer um canto onde seja "escritório", e não a creche do papai!
Durante a semana, fizemos uma listagem de tudo que aprendemos juntos. As coisas que eles elencaram foram bastante tocantes. Coisas simplórias aos olhos de outras crianças, mas super relevantes para ambos:
conheceram o caqui e a tangerina, elevadas à quitutes do quilate do brigadeiro. Aprenderam a segurar a xícara pela alça. Aprenderam a escovar os dentes corretamente. A tomar banho sozinhos e lavar todos os pormenores. Aprenderam a falar "voa", "aumenta", "pause" (avoa, alteia e pauser ficaram para trás). Conheceram diversas pessoas da nova família, e se apaixonaram por elas. Aprenderam a esperar, a não gritar, a tirar a louça usada da mesa. E nós, os pais? Aprendemos a priorizar o bem-estar dos nossos filhos. Acima da dor-de-barriga, do sono, do cansaço, do telefonema importante, do treino de corrida, do momento com os amigos. Aprendemos a ser um poço de paciência, a responder mil vezes  a mesma pergunta, a contar até 10 antes de pedir pela centésima vez para não colocarem o pé no sofá. Aprender a segurar o choro quando ficam doentes, a ter sangue-frio e passar segurança. Aprendemos a consolar aquela tristezinha de saudades, a não pressionar, a deixar fluir. A estimular no momento certo, a deixar livre para correr. Aprendemos a não dar ouvidos aos pessimistas. Aprendemos a não nos deixar levar pela empolgação.
Espontaneamente, meus filhos concluíram que hoje estão mais felizes, mais confiantes, mais amados. Uma declaração de amor no meio de uma viagem: "a gente está muito feliz em sermos filhos de vocês; não escolheríamos mais ficar com a família biológica". Antes de mais nada, não, não existiria essa possibilidade. Mas este reconhecimento foi o que eu precisava ouvir. Eles estão felizes, sentem-se parte de nós, e isto é o o mais importante!
 

domingo, 8 de junho de 2014

Individualizando o amor

Neste um mês e meio de família, muito me flagrei pensando em "como que eu dou conta" do turbilhão que é acolher os filhos de maneira que eles consigam se desenvolver plenamente e num ambiente saudável. Rotina mais ou menos cumprida, nós quatro visivelmente mais integrados e cúmplices, mas muitas coisas inquietantes e NOVAS surgindo.
Estamos com duas crianças com necessidades muito diferentes, uma pré-adolescente desafiadora e um menino desafiante. Enquanto a minha filha está aprendendo a se desvencilhar de algumas obrigações que ela mesmo se impôs, sobre cuidados com o irmão; o meu filho está aprendendo a amadurecer e sair do papel de bebê da própria irmã. Ela se permite ser cuidada, amparada, ensinada. Ele percebe que não é um bebê, e que pode ser responsável por suas coisas e que sabe expressar suas vontades sem a permissão da irmã. Ao mesmo tempo, deixar de representar papéis tão fortemente aprendidos é um processo difícil para todos nós. As verdades da minha filha não podem ser ignoradas, afinal, ela deu conta de si mesma e do irmão por muito tempo. Não posso deixar de ouví-la, de dar importância ao seu olhar e aos seus pequenos conselhos sobre como a vida poderia transcorrer. Não posso negligenciar a imaturidade do meu filho em lidar com seus sentimentos, seus cuidados e sua inabilidade em traduzir sem sua intérprete o que sente. A ligação entre eles é sólida, faz parecer que eles são um conjunto indissociável, que só existirão como "pacote" irmã-irmão.
Perceber que cada um tem uma personalidade e precisa de coisas-palavras-atitudes diferentes é um desafio para todos nós. Nem eles se percebem como indivíduos, tudo precisa ser duplicado e exatamente igual. As pequenas queixas como "ele ganhou mais suco", ou "você fez cosquinha só nela" são mais do que ciúmes. Parece que possuem cronômetros internos que contabilizam a duração dos abraços e beijos de boa-noite... Como mãe e pai, não nos furtamos de dividir nosso tempo, ou melhor, de compartilhar o nosso tempo qualitativamente com os dois. Mas estamos priorizando desenvolver relacionamentos mãe-filha, mãe- filho, pai-filha, pai-filho e todas as variantes possíveis.
Mas vejam bem, as tentativas são cravejadas de incertezas. A "mochilinha" da culpa (metáfora que li no grupo "pediatria radical") da maternidade já está sendo preenchida com a bagagem do dia a dia. Acertar é o objetivo, mas sei que a história de cada um deles já começou a ser escrita há tempos...
Nossos primeiros passos foram dados, todos de mãos dadas. Estamos aprendendo a dar espaço e a possibilitar que cresçam em todos os sentidos. Eles estão aprendendo a nos dar espaço em suas preciosas vidas!

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Tempo, o curativo da alma...

Vou contar de uma vez sobre a parte mais chata, mais dolorida, mais triste da história desta mãe. Porque a parte mais triste, mais dolorida, mais chata, mais tudo de ruim, com toda certeza do mundo, foi o passado dos meus filhos. Olhando agora, todas as coisas que me fizeram chorar, perder a esperança, ficar com inveja da felicidade alheia ficam tão mesquinhas, tão bobas, tão "ai, que nada a ver" perto da melancolia, da tristeza, da infância roubada, dos 4 anos abrigados... Mas enfim, lidar com as nossas feridas faz parte do crescimento pessoal. E meus filhos hoje, são gigantes, se eu pensar assim...
Em 2009, decidimos que era hora de aumentar a família. Tentamos engravidar naturalmente. Como eu tenho Síndrome dos Ovários Policísticos, sabia que teria que tomar algumas providências... fizemos testes, exames, procedimentos... Ora eu não estava ovulando, ora o marido não tinha qualidade de espermatozóides. Virou uma rotina massacrante: namorar com data marcada, se encher de esperança, e ver todo o empenho literalmente vir absorvente abaixo, todos os meses. Hormônios em bagunça, engordei 16 quilos em um mês (desde 2009, foram 33 quilos para carregar, literalmente um peso na consciência); perdi muito cabelo, e a vida em casal virou algo no mínimo estranho. Até que um dia, induzindo ovulação, fazendo tabelinha, observando a temperatura basal, DEU CERTO! Mas deu certo apenas por um mês. Caiu a ficha que não se controla nada nesta vida. Continuamos nas tentativas, induções, etc, por mais um ano. Eu havia me tornado uma pessoa muito diferente de mim mesma... Chorava de ÓDIO quando escutava que fulana engravidou "sem querer". Trocava de calçada para não passar na frente de vitrines de roupas de bebê. Colocava o travesseiro na cabeça para não ouvir o choro do nenê da vizinha. Só de pensar no que eu senti, no tanto de vezes que pensei: "eu mereço engravidar MAIS do que fulana"; ou " Ciclana está no segundo filho e eu NADA, que raiva dela", tenho vontade de me jogar aos pés dessas mulheres e pedir perdão. Perdão à todas as gestantes que orgulhosamente exibiram suas barrigonas em books postados no orkut. Perdão à todas as mamães que passeavam com seus filhotes no carrinho. Às grávidas que estavam na fila especial do banco. Não tenho, agora, vergonha de dizer: eu não soube lidar com a minha frustração em não gestar. Não foi nada bonito. Mas foi irracional, incontrolável. Não recebi nenhuma orientação dos ginecologistas que me trataram, sobre o que fazer com o filho que não vinha. Só era massacrada todas as semanas, pelas centenas de fotos das crianças que "eles fizeram" me encarando no consultório, quando ia fazer os exames que mostrariam que não, nenhum folículo estava maduro (claro que só estavam maduros quando o marido estava viajando a trabalho, né?). Nada de acolhimento. Sensação de que eu estava fazendo algo de muito errado, que era "#menasmulher", que a "mágica da maternidade" nunca iria acontecer.
Mulheres que não desejam ter filhos existem sim. São pressionadas duramente pelo mito da maternidade indispensável. Nós éramos o casal modernoso que não tinha filhos. Que viajava quando bem entendesse, que ia no restaurante às segundas-feiras, que não fazia ideia quem eram os desenhos animados da moda, que faziam cara de "ãhn?" para Patati - Patata e que nunca tinham assistido um XSPB. "Mas por que vocês não querem ter filhos?" Cara de paisagem. Queríamos, muito, muito. Mas a gestação não aconteceu. Não do jeito corriqueiro.
Uma manhã de conversa com uma colega muito querida da faculdade, que enfrentava algo parecido com o que estávamos passando, me falou que ia procurar o fórum para adotar. Poxa vida. Já havia surgido "adoção" nos papos com a família. Mas eu entendo que estava focada demais em barrigas para admitir pensar a respeito. Como boa representante de família mega-diversificada, claro que temos casos de adoção bem pertinho de nós. Nenhuma atual, mas todas bem-sucedidas e que trouxeram pessoas maravilhosas ao nosso convívio. Mas o fato é que nunca havíamos pensado nisso com seriedade.
Foram algumas semanas de longos papos. Caiu a ficha: a gravidez, por mais linda que seja, dura 9 meses. Ser mãe dura a vida toda. Mudou o foco. Caiu a segunda ficha. Eu queria um barrigão (opa, já tinha, né, 33 quilos a mais...!). Não queria o filho. Eu, pessoinha racional e prática, tinha um desejo imaturo. O resultado de uma gravidez, o filho indefeso, dependente, com a moleira aberta, que ia passar noites e noites chorando... bem, eu não tinha pensado TANTO assim nisso. Me deu até febre. Imunidade caiu MESMO em cair na real. Que MEDO! E se nós estivéssemos engravidado e parido? Ia aprender na marra a cuidar do pitoquinho. Por que gastei tanto tempo lendo, teorizando sobre "como engravidar", com pena de mim mesma; e quase nada pesquisando, falando, ouvindo, sobre CRIANÇAS?
Que mico, mãe! Mudou a perspectiva. Para ser mãe, não é só passar pelo ato fisiológico de parir. Se fosse só isso... Ser mãe é educar, é prover, é estimular, é cuidar, é dar beijinho-pra-sarar, é embalar, é dar bronca, é dar conselho, é dar risada... começo e fim, seria mãe até eu partir. Mas como uma mãe faz para morrer, se o filho de 70 anos ainda precisa dos conselhos, do colinho, do cuidado? Entendi coisas sobre a minha mãe. Sobre a mãe dela. Nossa, que choque de realidade. CLARO que eu teria um filho. Não doía mais a não-gravidez. As grávidas, que lindas elas, as mães com bebê no carrinho. As mães buscando na escola. As roupinhas de criança. As vitrines de brinquedos. Ahhhhh, que legal que a vida continua. Que legal que existem mulheres e homens que pensam na educação para a vida... que MÁXIMO pensar que meus amigos tiveram filhos. Foram 3 anos para cicatrizar um dodói que eu mesma me afligi. 2011 tirei o Band-Aid de cima do coração, de uma só vez. Eu iria ser mãe. Iria sim. Só faltava dar o primeiro passo: procurar o fórum da minha cidade.
Adotar, para quem apresenta problemas de fertilidade, é visto como um "paliativo" ou como uma alternativa de segunda categoria, por algumas pessoas. Para nós, está sendo O CAMINHO. Já nos falaram coisas como "ih, agora você vai engravidar" e nos contaram mil "causos" de pessoas que adotaram e pimba, grávidos. Inclusive existem pessoas que buscam a adoção como uma espécie de elixir de fertilidade. Olha, vou dizer que já ouvi de tudo enquanto tentava engravidar, e um dos métodos foi "adote".
Esse período de tristeza, de entrar em contato com a nossa parte que tem raiva, que tem medo, que tem inveja, que deseja que todo mundo que está feliz apodreça e caia, chama-se LUTO. É necessário viver, sentir, e se curar. Hoje eu sei que com ajuda profissional, talvez tivesse sido mais rápido, mais fácil. Mas com certeza eu teria entendido que aquilo era necessário. Hoje eu não "neuro" mais com "#menasmulher" por não ter parido. Eu acho graça das discussões "#menasmãe" entre "parideiras e cesariadas".  Há mais formas de virar mãe do que as fisiológicas.

Se você está buscando a gravidez, não "neure" demais. Faça aquilo que você considera possível. Nosso limite psicológico e financeiro ficou nas induções. Não tivemos estômago, cérebro e bolso para outros procedimentos. Se você se deparar com sentimentos negativos sobre este período, converse com o seu médico. Peça ajuda. Ninguém se nega a acolher um amigo que perdeu um ente querido. Ninguém convida a viúva para ir na balada um dia depois de enterrar o marido. Se permita chorar, desabafar. Sinta. Não guarde para si, respeite o seu tempo. Se a barra estiver pesada, terapia pode ajudar e muito-muitão!

Depois dos 30 anos, é praticamente um terrorismo a cobrança por um filho. Se você nem estiver com um companheiro, então... Você estará velha, condenada à solidão eterna e impedida de entrar no Clube mais exclusivo do mundo: o das mães. "Só quando você for mãe você vai saber", "ser mãe é a melhor coisa do mundo", "maternidade é a plenitude da mulher"... NÃO ACREDITE NESSAS COISAS. As mães tendem a se proteger, a negar as vontades de pendurar os filhos no cabide e a falar qualquer coisa para não dizer que não sabem ou que têm dúvidas! Quando a gente vira mãe, a gente sabe menos ainda, a gente liga pro pediatra por cocô; a gente quer passar álcool no banco do ônibus; a gente não quer deixar andar descalço nem comer melancia antes de dormir. A gente acorda pra ver se o filho está respirando, a gente sai de casa de pantufa. A gente se descabela, não tem mais sossego, se pega duvidando das certezas. Ser mãe é difícil pra caramba, e tem um mundão de mães que não fazem ideia do que fazer nos próximos 5 segundos. E sim, dá pra ser completamente feliz e realizada sem ter filhos. Agora, se perguntarem o que EU sinto... eu me sinto feliz, imensamente, e sou bem bocó, tenho mil certezas e um milhão de dúvidas sobre o "jeito certo de fazer". E jamais esqueçam, existem muitas formas de virar mãe!

terça-feira, 6 de maio de 2014

A (Inúmeros) Pedidos,

Não foi um, dois ou três pedidos para documentar a incrível experiência de receber em meu coração os meus filhos F. (10)e J.A. (9).

Nossa história como família começou em 2011, quando procuramos pela primeira vez o setor de assistência social do fórum da Comarca de Criciúma - SC. Com o coração cheio de esperança, recebemos o primeiro "balde de água fria". Para ingressarmos na fila da adoção, necessitaríamos fazer um curso de capacitação. E para fazer este curso, entramos na lista de espera para o segundo semestre do 2012. Deixei o fórum chorando. Toda a frustração de todas as gravidezes sonhadas, esperadas e não-realizadas afloraram neste momento. Foi doloroso saber que ainda precisaríamos esperar mais um tempo, para nos candidatarmos a pais. Este assunto difícil e cheio de "mimimi" fica para outro capítulo, quando irei contar sobre o período de "luto" pelo filho que não veio, para poder acolher no coração os filhos que vieram! Nossa história então dá um salto no tempo. Mais de um ano depois de procurarmos o fórum, recebemos o telefonema da assistente social, confirmando a participação do curso preparatório. Lá fomos nós, nos encontrar com outros candidatos a pais, receber informação sobre o processo e o mais importante: derrubar preconceitos e rever certezas.
Em novembro de 2012 concluímos o curso. Entramos com certezas X Y Z, saímos com dúvidas multiplicadas ao infinito. Confesso que me achei muito bem resolvida comparada com alguns dos colegas. E meio atordoada com o quanto abri meu coração à realidade das crianças abrigadas no Brasil. Eu ainda achava que só era possível ter apego e amor imediato por crianças pequeninhas. Até ouvir, ler e pesquisar sobre a adoção tardia. Plantaram a sementinha no meu coração. O tempo que veio a seguir serviu para a sementinha germinar, crescer e solidificar em mim. Passado totalmente o luto pelo filho idealizado, meu coração entendeu que maternar é possível em qualquer idade. Que teria milhões de primeiras vezes com meu filho. E que este filho poderia ter irmãos. Poderíamos aumentar nossa família consideravelmente! Mas ainda tudo isso era MEU sentimento. Faltava o meu companheiro de vida e sonhos se abrir para a possibilidade de uma adoção tardia. E aí entra o nosso segundo salto no tempo.
Segundo semestre de 2013. Praticamente um ano depois de concluído o curso de capacitação, recebemos um telefonema do fórum. (Não pensem que não entrávamos em contato periodicamente com a equipe técnica, perguntando do andamento do processo de habilitação...) BENDITO telefonema! Começaríamos para valer o processo de adoção. Era a hora de reunir certidões, atestados, documentos... Tudo documentado, entregue, sentimos que estava de fato "começando" a virar realidade. Nesta mesma época, estávamos finalizando a construção da nossa casa. Lembro de ter perguntado à assistente social sobre a visita em casa, preocupada se seria em nosso antigo "apertamento" ou se seria na casa nova. "Na casa nova". Bem, nunca achei que seria rápido mesmo...
Em outubro, outro telefonema. Iríamos começar as entrevistas. Novembro passou voando, as conversas maravilhosas com a psicóloga. As últimas neuras dissipadas. O dia de preencher o perfil.
"Escolher". Etapa MEDONHA. Muita gente leva ao pé da letra, essa etapa. Escolhem mesmo. Cor da pele, histórico familiar, idade, irmãos, doenças... acho que grande parte dos nossos medos e preconceitos sumiram nesta hora. Entendam, o sistema de busca do CNA (cadastro nacional de adoção) é engessado. Ele é um programa de computador, alimentado por dados das crianças disponíveis para adoção. É necessário colocar parâmetros de busca. Nem que seja "não faz restrição" nos quesitos "escolhíveis". E assim definimos: "não faz restrição" em todos os quesitos a não ser "idade = 12  anos"; grupo de 3 irmãos e "doenças e síndromes tratáveis, como hepatite C e HIV". Pronto. Estávamos definindo o nosso futuro. Foi a maior dor de barriga até então. Saímos do fórum completamente radiantes! Com a visita domiciliar marcada, cheios de esperança e confiantes que nossas escolhas nos levariam às crianças mais desejadas, esperadas e amadas do planeta Terra. (Superlativos de mãe coruja, eu posso!).
No dia da visita domiciliar, acordei as 5 da manhã. As 8 minha casa estava IMPECÁVEL. Casa de revista de decoração. Óbvio que eu estava mais do que informada que não é o bom-gosto ou a tendência virginiana de arrumar o armário em degradê de camisas que permitem uma casa receber crianças. Importante é garantir segurança, higiene, bem-estar... Estávamos montando o nosso "ninho", sonhando com o dia que "eles" chegassem e garantissem a alegria da casa!
Alguns dias se passaram, novo telefonema. Achei que era mais algum procedimento, alguma entrevista, outra burocracia. Fui sozinha, o marido estava viajando a trabalho, e não quis adiar as burocracias por conta disso... Na sala da psicóloga, a pergunta: "Você sabe por quê você está aqui?" Mal consegui articular uma resposta... "Temos um casal de irmãos para te apresentar... eles tem 9 e 8 anos". Foi tudo o que a minha memória gravou do momento anterior à ver as fotos das crianças que eu viria a amar de todo o meu coração. O sorriso da minha filha. A carinha de sapeca do meu filho. Momento apaixonante. Acho que fiquei nas nuvens por uns instantes, não tirei mais o sorriso da cara por algum tempo... Mal pude esperar para telefonar para o maridão e contar a novidade... Então nos sentimos de fato "esperando".
Aqui cabe uma explicação bem contundente. Fui questionada sobre "como" estaria conhecendo crianças se nem habilitados estávamos ainda. Em nossa comarca, havia somente os meus filhos disponíveis para adoção. As demais crianças abrigadas não estavam destituídas. A adoção tardia é algo raro. E ao contrário do que se pensa por aí, não são os pais que escolhem os filhos. Você que está pensando em adotar, não visite abrigos escolhendo um filho. Muitas crianças estão lá temporariamente. Algumas estão em processo de reaproximação com a família. Dizer à uma criança que você gostaria de adotá-la pode ser extremamente perigoso. Ela irá criar expectativas, irá fantasiar... isso aconteceu com a minha filha, volta e meia temos conversas difíceis, quando ela é contrariada, sobre uma determinada pessoa que havia prometido ser sua mãe, mas só por piedade, sem qualquer intenção de realmente se habilitar para adoção... isso é assunto de outra postagem... Como eu dizia, a equipe técnica do fórum conhece o perfil das crianças disponíveis naquela comarca, e vai achar pais para essas crianças. E não achar crianças para os pais que estão na fila. Então, o cadastro único de pretendentes é algo realmente subjetivo. Pois preenchemos preferências, restringimos algumas características e isso que determina o seu lugar real na fila. Para cada perfil preenchido existe uma "sub-fila". Para adotar um grupo de irmãos, também a equipe irá considerar a disponibilidade real de tempo que esta família terá; as condições psicológicas dos pais, etc, etc, etc. De um parente querido que também estava na fila, recebi uma mensagem questionando a seriedade do processo de adoção que nos submetemos. O perfil dele era um tanto diferente do nosso. E sim, um ano a mais no preenchimento do perfil pode tornar a espera muito menor. Mas isso não quer dizer que os candidatos devam modificar o perfil se não estão realmente abertos à essa mudança. Sem dúvidas, acolher um filho de 2 anos é consideravelmente diferente do que acolher um de 12. Ouça o seu coração, racionalize o mais que puder. Faça de tudo para ser honesto consigo mesmo. O preenchimento do perfil é a única garantia de proteção da criança contra uma possível rejeição no período de adaptação. E uma segunda rejeição é tudo que a criança abrigada NÃO precisa. De maneira alguma altere o seu perfil se isto não for sincero. Se você sonha com um bebê, saiba que sim, vai demorar bastante. Mas entre NUNCA e demorar bastante, fique com o demorar bastante.
Então, éramos a primeira escolha para aquelas crianças. Entendendo isso, fomos nós, pai e mãe em ser, consultar novamente com a psicóloga. Perguntas mil... sobre a família biológica, sobre a situação legal, sobre peculiaridades... Nos foi pedido um tempo para que se desse a notícia às crianças. Para que tomassem ciência que suas vidinhas iriam ser diferentes. Isso me cortou o coração. Se há tempos eu não me comovia com muita coisa, neste dia, chorei muito. Tive muito, muito medo. Já havíamos nos apaixonado. E se não nos quisessem? E se não desse certo? E se fizéssemos algo errado?
Tivemos algumas sessões, onde nos era repassado como eram os encontros preparatórios com as crianças. Recebemos cartinhas, desenhos... Separamos fotos nossas, dos gatos, dos avós, dos tios, para que eles nos conhecessem da mesma maneira que os conhecemos: por fotos. Tiraram fotos com as nossas fotos: a primeira foto de família (palavras da F.). 
2014 começava com tudo. Com todas as emoções possíveis. Enfim, O ENCONTRO. Chegamos antes. Entramos na sala de atendimento familiar. Espera, espera. Suando frio, imaginando milhões de coisas... como seria a voz, como seria o cheirinho, o toque da pele, a textura dos cabelos, o som da gargalhada... Iriam gostar de nós? F. havia pedido para ter uma "mãe bem bonita". Até unha postiça eu coloquei. Insegurança total. Se eu estava com medo, imagina eles? Ouvimos risadas e gritinhos no corredor. Coração na boca. Chegou o momento! Coisa estranha, misteriosa. Nos pertencíamos. Aquela menina meiga, o menininho tímido. Saíram naquele momento do mundo da imaginação de dois adultos sonhadores e caíram no colo de pais amorosos. Parimos. Ali, na salinha de atendimento do fórum. Nossos filhos chegaram. Por uma hora conversamos, nos abraçamos, começamos a ser menos estranhos. Marcamos para a próxima semana novo encontro. Passou rastejando. Relatividade, né Einstein? Nossos encontros subsequentes foram cada vez mais prazerosos, nos conhecíamos cada vez mais. Chegou março e pudemos levá-los de volta ao abrigo, depois de uma sessão no fórum. Que delícia. Nos apresentaram para todas as cuidadoras, as crianças, as voluntárias, as funcionárias... Este é meu pai, esta é a minha mãe. Nos chamavam de pai e mãe, de tia, de tio, de professora, de professor... Mas esta apresentação nos aliviou: fomos aceitos!
Em duas semanas eles vieram conhecer a casa antes de passar o final de semana. Seria o aniversário da F., 10 anos, duas semanas depois do aniversário do J.A., de 9 anos. Iríamos celebrar em família e apresentá-los aos familiares (família e amigos) chegados aqui de Criciúma e aos vizinhos do condomínio. Passamos 4 finais de semana juntos, e após o feriadão da Páscoa, na sexta-feira dia 25 de abril de 2014, finalmente, fizemos a mudança para casa. Resumidamente, este é o início da nossa família. Aos poucos, vou abrir "parênteses" sobre cada aspecto do processo da adoção, sobre as experiências em recebê-los, sobre as vivências... Podia terminar a história agora, com um " ... e foram felizes para sempre", mas sinto que o final feliz foi apenas um início feliz de uma linda, complexa, emocionante e apaixonante história de amor.
Vou tentar resgatar meus "informes" no Facebook, para ter maior precisão de datas. Tentarei manter uma periodicidade de postagens, como um diário, e aos poucos, inserir postagens sobre o que já fizemos e passamos. Não encontrei muitos relatos sobre a adoção tardia, sobre o período de adaptação de crianças maiores, e sobre as especificidades dos meus filhos. O meu maior motivador em compartilhar a "intimidade" da construção do amor parental, do aprendizado da maternagem, é este: ser lida por alguém que esteja pensando em encarar esta realidade enquanto ainda é sonho. Dar o empurrãozinho para alguém abrir o coração e se permitir amar e ser amado de uma maneira INCONDICIONAL. Conhecer pessoas que estejam vivendo o amor. E especialmente responder à ENORME torcida positivíssima que recebemos desde o dia em que decidimos que seríamos pais através da adoção. Obrigada a cada um que sonhou junto, que segurou a barra, que fez sua prece, que deu um sorriso ao nos ver felizes.